Edição de Maio N° 8

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Mario Sergio Cortella

18 de Novembro de 2011
 
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Apresentação

 

Vida, minha vida, olha o que é que eu fiz?
 
Por Mario Sergio Cortella

 

 

Tantas são as vezes em que citamos Chico Buarque que isso só reafirma o caráter genial da sua obra e a perenidade das inquietações e emoções que nos legou; no entanto, mesmo em meio a tamanha profusão estética, frases de algumas de suas músicas servem para variadas situações e são, de forma, recorrente, lembradas.

Aquela que mais me assusta, quando penso nas escolhas que temos de fazer, na construção da necessária proporcionalidade entre o conjunto da nossa Vida e a Carreira que dela faz parte, aparece em 1980, quando lançou exatamente a canção Vida. Lembra do primeiro verso? Vida, minha vida, olha o que é que eu fiz. Frase de arrependimento, autopiedade, consciência crítica, desespero? Tanto faz; sempre dela flui a percepção de nossa fragilidade quando nos distraímos e deixamos de atentar para o fluir inexorável do tempo que precisa ser pensado para bem viver, em vez de desperdiçado por desleixo ou descuido.
Bem viver! O que seria isso? Não é, claro, uma vida ostentatória e fútil; não é, também, o acúmulo obsessivo e tolo que esquece a advertência de Millôr Fernandes quando diz que “o importante é ter sem que o ter te tenha”; não é, ainda, a posse sem partilha ou o poder sem generosidade.
Bem viver é poder viver as inúmeras dimensões da nossa existência - Família, Trabalho, Amizade, Cidadania, entre outras – sem admitir, passiva ou ativamente, a dissonância e a desproporção na harmonia que afasta o sofrimento (pelo limite vivido) e a culpa (pela suposta impotência).
No entanto, mesmo com o impacto do “olha o que é que eu fiz”, o que mais me alerta na música é o perigo presente da próxima estrofe: “Deixei a fatia mais doce da vida / Na mesa dos homens de vida vazia / Mas, vida, ali, quem sabe, eu fui feliz”.
Dois são os temores: de um lado, a possibilidade de ser cúmplice, protetor ou parceiro dos homens de vida vazia, e, por outro, a sedução que tal vacuidade exerce, pois entorpece e simula felicidade, penumbrando a letargia interior e a agonia exterior.
Vida vazia? Imagine, diria algum; não tenho mais tempo para nada, de tanto que esta vida está cheia. Há um tempo, porém, que precisa ser escolhido: aquele que permite pensar fundamente em trecho da conversa de uma boneca de pano e um sabugo de milho, lá no Memórias de Emília do especial Lobato:
 
“A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais. A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama. Pisca e anda. Pisca e brinca. Pisca e estuda. Pisca e ama. Pisca e cria filhos. Pisca e geme os reumatismos. Por fim, pisca pela última vez e morre.
- E depois que morre? - perguntou o Visconde.
- Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?”.
 
É.
 
Mario Sergio Cortella, filósofo, escritor e palestrante, é autor, entre outros livros, de “Vida e Carreira: um equilíbrio possível?” em parceria com Pedro Mandelli (Papirus, 2011).
 





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